Há uma ilha na Nicarágua que se chama Ometepe

A ilha dos dois morros, dois vulcões

Nessa ilha,

o pôr do sol é espetáculo

o lago é mar

descer é tão difícil quanto subir

em segundos, o tempo pode mudar

Lá, portas são janelas

que se abrem pontualmente às seis da tarde

para expulsar o calor,

que é como visita inconveniente

e não entende que já não é bem-vindo

Todas as casas abertas

são um convite para entrar —

não a esses lares,

mas ao seu cotidiano

A ilha vive em harmonia

Todo dia, ela faz tudo sempre igual

Sai barca, entra barca

o ordinário nunca é banal

Às cinco, passa-se o café

coado, tradicional

Às sete, uns sobem o vulcão

outros varrem o quintal

Às nove, uns ainda a subir,

outros assistem ao jornal

Manhãs são para queimar folhas,

criar bolhas, lavar roupa e contar histórias

Tardes são para lindos entardeceres,

que perdurarão na memória

Noites são para truco e para trocas,

na varanda de casa ou no bar

A senhora na cadeira de balanço,

o balanço do casal ao se beijar

Nessa ilha, a distância é relativa

não se medem metros, mas vontade

e os preços são definidos

conforme a matemática de cada um

Há mitos de homem-cavalo

e de tesouro no fundo do charco,

que ajudam a alimentar a narrativa

de que essa ilha é uma grande fantasia

Nessa ilha de conto de fadas,

em qualquer lugar se dança

todo coco é louco, jujuba é aliança

e amores passageiros

são permanentes.

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