Ele me questiona: “Não é isso que um namorado faz?”. E eu respondo: “Não sei. Nunca cheguei nessa parte.”
Ultimamente, o meu algoritmo está viciado em me mostrar coisas sobre relacionamentos saudáveis. Ele entendeu que eu preciso de ajuda para acreditar que as coisas podem, sim, ser boas, sem poréns.
Existem realidades que eu só conheci depois de ter vivido muito. Uma delas é a do amor companheiro. Foi só aos 17 anos, quando fui morar na Austrália, que conheci e vivi em famílias harmoniosas. Foram 17 anos da minha vida acreditando que a vida de casal era a vida dos meus pais, dos pais das minhas amigas e dos meus amigos. Casais sem amor. Casais que deixaram de ser. Casais que nunca nem foram.
Para mim, tudo isso sempre foi normal. Anormal foi chegar à Austrália, morar com cinco famílias diferentes e perceber que todas eram compostas por casais companheiros, que se amavam e se apoiavam de igual para igual.
É estranho pensar que, culturalmente, não aprendemos a ser bons parceiros. É triste pensar que aceitamos o nosso destino de uma vida sem o afeto que merecemos porque entendemos que essa é a realidade à qual pertencemos. Nós nos submetemos ao ruim porque sabemos que há piores e que os melhores são, na realidade, muito poucos e, muitas vezes, inexistentes no nosso entorno.
Aceitamos ser desrespeitadas, desvalorizadas, humilhadas e violentadas. A troco de quê?
Meu primeiro namorado uma vez me disse que os amigos dele ficaram impressionados de vê-lo comigo, porque ele geralmente saía com mulheres mais bonitas. Como se ele não fosse um híbrido de Cruz-Credo com Marfagarfo.
Essa mesma pessoa, um dia, me chamou de burra para o pai dele. Burra não. Muito burra.
Cheguei bem na hora em que ele estava falando isso. Dei meia-volta e fui embora. Foi a última humilhação que aceitei passar.
Imaginem que, antes disso, eu já tinha sido traída em uma festa a que fomos juntos, recebido mensagem de uma amante dizendo que ele mentia para mim para poder vê-la, e daí para baixo. A humilhação, porém, não terminou aí. Ao mesmo tempo em que ele me ligava chorando, pedindo para voltar, me enviava mensagens me chamando de mimada.
É mais fácil aceitar a humilhação quando ela acontece de maneira privada. Ser humilhada em público, em frente a pessoas que você respeita, dói mais.
Acredito que, por isso, muitas mulheres aceitam viver em condições péssimas. Os homens ruins são muito bons em fingir. Eu via isso pelo meu pai: todo mundo o adorava, menos a gente.
É mais fácil achar que estamos erradas quando a única outra testemunha dos fatos é justamente a pessoa que está nos fazendo mal.
O meu segundo namorado também me traía. Sendo sincera, as traições nunca me incomodaram tanto quanto as humilhações. A traição me dava nojo, mas não me causava dor. A humilhação doía porque eu sabia exatamente onde havia falhado para que aquela pessoa me enxergasse daquele jeito.
E é horrível dar-se conta dos próprios erros de uma maneira tão intimamente agressiva.
Eu sempre me diminuí para que quem estivesse comigo se sentisse grande. Meus namorados sempre foram mais baixos que eu. Ganhavam menos que eu. Sabiam menos que eu.
Foi um erro mútuo buscar no outro aquilo que faltava em nós. Neles, faltava grandeza; por isso, queriam a minha. Em mim, faltava lucidez; por isso, eu pensava através deles.
Hoje, tenho ao meu lado — figurativamente, por enquanto — uma pessoa que me celebra todos os dias, sem exceção. E, quanto mais me abro e me entrego a esse amor, mais medo e desconfiança surgem, involuntariamente, dentro de mim.
Eu li em algum lugar — frase usada para não admitir que vi no Instagram — uma frase que ressoou em mim: “Seguir em frente é diferente de sanar; a gente não sana até viver um relacionamento saudável.”
Isso me fez refletir, porque eu sempre achei que o processo de cura fosse um processo solitário. Mas, parando para pensar, não faz sentido que a reconstrução seja um processo solitário se a destruição ocorre a dois (ou mais).
Graças ao grande filósofo contemporâneo @fah_q_all, que comentou em um reels que o algoritmo trouxe até mim, fui capaz de entender o porquê de eu não estar tão pronta quanto acreditava para receber o amor que sei que mereço. Achei que podia sozinha, mas não é bem assim que a banda toca.
Por sorte — muita sorte mesmo, dessas sortes que apenas um lugar com o nome de Fortuna traz para a gente —, eu conheci o Ricardo.
Eita, homem paciente e apaixonado.
Eu espero que nenhuma das minhas insanidades jamais supere as razões que ele tem para me amar tanto. Até hoje, desconheço quais são, mas aceito e recebo.
Me entristece pensar que muitas mulheres vão passar a vida inteira em relacionamentos ruins porque escolhem ver o copo meio cheio quando o copo está, nitidamente, vazio.
Acontece que, ao olhar para o lado e ver outras mulheres acompanhadas de homens medíocres, a gente acaba acreditando que o medíocre é ordinário. Mas não é.
Me entristece ver mulheres tão maltratadas que, mesmo depois de conseguirem escapar dos homens medíocres, acabam se transformando em repelentes contra todo e qualquer amor que se aproxima delas, porque acreditam que são capazes de sanar essa dor sozinhas.
Nada disso tem a ver com pessoas que escolhem ser sozinhas porque sim. Falo de pessoas desacreditadas que, como eu, escolheram um caminho mais fácil — o do desapego ou o da solidão — para evitar ao máximo aquilo que nos parece inevitável: a dor.
Mas que, na verdade, sempre quiseram um amor recíproco.
Eu espero que todas as mulheres vivam um amor, breve ou duradouro, com alguém que as ame de verdade.
Alguém que as escolha todos os dias e celebre cada pequena conquista do seu dia, ainda que seja algo mínimo, como conseguir almoçar em um horário decente.
Alguém que de verdade se interesse por qualquer imbecilidade que elas tenham a dizer e que admire a inteligência e o conhecimento delas sobre coisas insignificantes.
Alguém que exalte as suas amigas e todas as pessoas que elas amam.
Alguém que esteja disposto a escutar e que seja paciente para ensinar.
Alguém que confie nelas e as motive a querer ser melhores.
Alguém que saiba se expressar de uma maneira que não as minimize, mas que as faça refletir.
Alguém que as olhe com tanta admiração que as faça acreditar que são tudo aquilo que ele vê nelas.
Porque, se ele vê, é porque você é.
É tão difícil me ver com os olhos do Ricardo. Estou aprendendo a me enxergar com a mesma compaixão com que ele me vê.
Hoje, acordei triste e contei para o Ricardo que não me sentia bem. Tivemos conversas intermitentes ao longo do dia, até ficarmos mais livres e conseguirmos conversar de maneira um pouco mais fluida.
Antes de se despedir, ele me perguntou se eu me sentia melhor.
Eu disse a ele que sim, porque ele me fez companhia e nunca invalidou o que eu sentia.
Ele então me questionou:
“Ué, não é isso que os namorados fazem?”
Eu respondi:
“Não sei. Nunca cheguei nessa parte.”
Ele então disse:
“Chegou agora.”
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